Faturamento real das PMEs desacelera no 3T2026

O Índice Omie de Desempenho Econômico das PMEs (IODE-PMEs) mostra que a movimentação financeira real média das pequenas e médias empresas brasileiras consolidou um cenário de desaceleração e encerrou o terceiro trimestre de 2026 praticamente estável, com leve alta de 0,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado reflete uma piora geral no ambiente macroeconômico nacional, que passou a limitar o ímpeto de crescimento dos negócios.a

Postado quarta-feira 28/10/2026 por Redação

Categorias: Design Empresas Notícias

Faturamento real das PMEs desacelera no 3T2026
Faturamento real das PMEs desacelera no 3T2026

O IODE-PMEs funciona como um termômetro da atividade econômica das empresas com faturamento anual de até R$ 50 milhões, acompanhando 756 atividades econômicas distribuídas entre os setores de Comércio, Indústria, Infraestrutura e Serviços.

Figura 1: Comparação anual do IODE-PMEs (YoY%)

(Número índice – base: média 2023=100)

 sustentação do índice em campo ligeiramente positivo ocorreu em um cenário de fortes pressões do lado da demanda. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), calculado pela FGV, recuou 0,5 ponto em setembro, registrando o quinto mês consecutivo de queda e atingindo 84,2 pontos, o menor nível desde novembro de 2022. Esse cenário de pessimismo está diretamente relacionado ao comprometimento do orçamento das famílias, em decorrência do crescente endividamento da população, que já destina 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas, segundo dados do Banco Central do Brasil.

 

No mercado de trabalho, a dinâmica geral do país segue resiliente, com a taxa de desemprego mais recente apurada pelo IBGE marcando 5,3% no trimestre encerrado em agosto, um patamar de mínima histórica. Por outro lado, mesmo com esse cenário de aquecimento, já há sinais de alerta: as admissões formais no varejo acumulam queda de 2% no ano, acendendo um sinal amarelo na geração de emprego do setor. 

 

O cenário de custos e crédito também impõe barreiras significativas para o avanço das PMEs. A inflação voltou a pressionar as operações: o IPCA acelerou 0,82% em setembro, puxado principalmente pela persistência da alta de alimentos e energia. No acumulado em 12 meses, o índice oficial de inflação chegou a 4,58%, voltando a operar acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central. 

 

No campo monetário, o contexto de juros permanece muito restritivo, acompanhando a desaceleração da atividade econômica captada tanto pelo IODE-PMEs quanto pelas pesquisas mensais do IBGE. Dessa forma, o mercado financeiro vê espaço para cortes apenas graduais na taxa Selic, com estimativas do boletim Focus apontando para uma taxa básica de 13,25% ao fim do ano. 

 

Do ponto de vista setorial, os resultados do IODE-PMEs voltam a evidenciar ritmos bastante distintos entre os segmentos no terceiro trimestre. As PMEs da Indústria perderam tração e recuaram 1,4% na comparação anual, interrompendo uma sequência positiva de cinco trimestres consecutivos de avanço. O índice sofreu um peso significativo do recuo observado nas Indústrias Extrativas. Já na Indústria de Transformação, o resultado foi mais estável, com 11 dos 23 segmentos acompanhados operando no campo positivo. 

 

Embora no acumulado do ano (YTD) o setor ainda opere em crescimento, o peso do ambiente econômico restritivo já é claramente verificado na produção. De toda forma, os principais destaques industriais do trimestre foram ‘Preparação de couros’, ‘Fabricação de produtos de borracha’ e ‘Fabricação de alimentos’.

 

Figura 2: IODE-PMEs – aberturas setoriais

 

(3T2026 x 3T2025)

 

Fonte: IODE-PMEs (Omie)

 


No setor de Serviços, o desempenho das PMEs no trimestre foi considerado estável, com variação marginal negativa de 0,2% no comparativo anual. O segmento tem operado com resultados inconstantes desde o último trimestre de 2025, variando entre avanços contidos e desacelerações pontuais. Ainda assim, houve destaques positivos em áreas como ‘Serviços para edifícios e atividades paisagísticas’, ‘Publicidade e pesquisa de mercado’ e ‘Atividades de serviços financeiros’.

 

Já o Comércio foi o grande responsável por sustentar o índice no campo positivo neste trimestre. O faturamento das PMEs do setor avançou 2,1%, marcando o segundo avanço trimestral seguido. O crescimento foi observado tanto no atacado (+3,6%) quanto no varejo (+1,1%). No acumulado do ano, o Comércio registra alta de 1,5%, resultado contido apenas pelo desempenho mais fraco no primeiro trimestre de 2026. Entre as atividades que mais tracionaram o índice, destacam-se ‘Varejo de artigos fotográficos e para filmagem’, ‘Varejo de artigos de joalheria’ e ‘Varejo de bebidas’.

 

O setor de Infraestrutura registrou um ligeiro avanço de 0,4% no terceiro trimestre. O resultado foi impactado de forma favorável pela recuperação de ‘Serviços especializados para construção’, que ajudou a manter o consolidado do segmento no terreno positivo. 

 

Por fim, o IODE-PMEs também permite uma leitura regional do desempenho das pequenas e médias empresas brasileiras. No terceiro trimestre de 2026, o índice manteve-se estável no Sudeste (+0,3% YoY) — região que concentra a maior parte das empresas ativas do país, enquanto avançou nas regiões Norte (+7,2%) e Nordeste (+4,2%). Em contrapartida, o índice inverteu o sinal na região Sul (-0,5%), que vinha em expansão. Já o Centro-Oeste registrou o terceiro recuo trimestral consecutivo (-6,4%).

 


Mercado das pequenas e médias empresas perde fôlego e 2027 deve ser de crescimento moderado

 

Os resultados abaixo do esperado ao longo do terceiro trimestre motivaram uma revisão baixista da projeção do IODE-PMEs para 2026. A estimativa passou de +2,6% para +2,2% frente a 2025, ano em que o índice registrou crescimento de 1,8%. Como mostra a Sondagem Omie das PMEs, a manutenção dos juros em patamar elevado por um período prolongado tem pesado sobre as operações das pequenas e médias empresas: o crédito mais caro comprime margens, encarece o capital de giro e adia investimentos. Esse efeito se soma à própria desaceleração da economia, que ficou mais evidente no segundo semestre.

 

O movimento está em linha com o que vêm sinalizando os principais agentes de mercado. A mediana das expectativas do Boletim Focus do Banco Central para o PIB de 2026, que chegou a se aproximar de 2,0% no meio do ano, recuou para cerca de 1,85%, e a projeção para 2027 caiu para algo em torno de 1,4%. O quadro é de perda de fôlego da atividade, ainda que sem interrupção do crescimento.

 

No curto prazo, a renda e o mercado de trabalho seguem como os principais pilares de sustentação do consumo, um dos motores das PMEs. O desemprego em níveis baixos, os ganhos de rendimento real e a política fiscal expansionista, com reajustes reais do salário-mínimo e ampliação de programas de transferência de renda e crédito, continuam amortecendo a desaceleração. Esse mesmo conjunto de fatores, contudo, amplia os desafios fiscais adiante e limita o espaço para uma queda mais rápida dos juros.

 

Pelo lado dos custos e do crédito, o cenário permanece adverso para o empresário. As tensões no Oriente Médio mantiveram pressionados os preços do petróleo e dos combustíveis, com reflexos sobre cadeias produtivas relevantes. As expectativas de inflação para 2026 seguem acima do teto da meta, ao redor de 5%, e o mercado projeta a Selic encerrando o ano em 13,25%. Na prática, isso significa que o alívio monetário chega devagar e que o custo do dinheiro continuará sendo um dos principais limitadores para as PMEs nos próximos meses.

 

A esse ambiente soma-se uma elevada incerteza política. Os contornos da política econômica do próximo governo, sobretudo na condução fiscal, ainda estão em aberto. Nesse contexto, a postura conservadora nas decisões de investimento e contratação tende a se manter até que haja maior clareza sobre a agenda econômica a partir de 2027.

 

Para 2027, a projeção do IODE-PMEs foi praticamente mantida, passando de 1,7% para 1,8%. A estimativa reflete um ano de transição: o ciclo de cortes da Selic deve ganhar intensidade, mas os juros ainda permanecerão em patamar restritivo e seus efeitos sobre a economia real chegam com defasagem. A ressalva é que 2027 segue permeado por incertezas, especialmente no campo fiscal. A trajetória de alta da dívida pública, a continuidade da expansão de auxílios e programas de transferência de renda e a necessidade de ajuste das contas desenham um horizonte em que a credibilidade fiscal do novo governo será determinante para o ritmo de queda dos juros e, por consequência, para a confiança de empresários e consumidores.

 

O cenário externo segue como componente decisivo. Os entraves nas relações comerciais com os Estados Unidos, em especial as ameaças e medidas tarifárias, e os efeitos dos conflitos em curso no mundo, com destaque para a guerra no Irã e sua influência sobre o preço dos combustíveis, continuam como fontes relevantes de volatilidade. Ainda que muitas pequenas e médias empresas se enxerguem distantes dessa realidade, a cadeia de efeitos é concreta: um choque no petróleo eleva o custo do frete e dos insumos, pressiona a inflação, adia cortes de juros e encarece o crédito, chegando, ao final, ao caixa do pequeno empreendedor.

 

Em síntese, a reta final de 2026 e o início de 2027 reúnem um duplo desafio para as PMEs brasileiras: de um lado, lidar com uma atividade em desaceleração, juros ainda elevados e um quadro político e fiscal indefinido; de outro, atravessar marcos decisivos da Reforma Tributária, que deixou de ser um tema de estudo e passou a exigir decisões concretas.

 

Até 30 de outubro, as empresas do Simples Nacional precisam decidir se recolherão o IBS e a CBS dentro do DAS ou pelo regime regular, o chamado Simples Nacional Híbrido, com efeitos para o primeiro semestre de 2027. Quem optar pelo modelo híbrido ainda poderá desistir, em caráter irretratável, entre 3 de novembro e 20 de dezembro, já com mais clareza sobre a alíquota da CBS para 2027. Em seguida, em janeiro de 2027, tem início a transição do PIS/Cofins para a CBS, primeiro passo efetivo da substituição tributária que se estenderá até 2033. Diante desse calendário, o planejamento não pode ficar para depois: as decisões tomadas agora serão determinantes para a competitividade e, em muitos casos, para a própria sobrevivência das PMEs nos próximos anos.

 

Fonte: IODE-PMEs (Omie)

Texto:  Klaus Wagner Gambarini

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